Longevidade com 3 Dígitos
Há uma certeza na vida que vale para todos os seres humanos, independentemente de qualquer característica pessoal ou situação socioeconômica: a velhice sempre chega para todos. Embora envelhecer seja algo tão natural e esperado, ainda existem tabus sobre o tema que precisam ser derrubados.
Com os avanços da medicina, viver até aos 100 anos ou mais, é um cenário cada vez mais visualizável. Estudos estatísticos realizados preveem um aumento exponencial dos centenários nos próximos anos.
O crescimento dos centenários no mundo e em Portugal
Em Portugal existem mais de 4000 centenários e tem se verificado um continuo crescimento a nível mundial deste grupo etário e de acordo com estimativas das Nações Unidas, em 2100 serão mais de 25 milhões. O chamado fenómeno de “revolução da longevidade”.
Estudos demonstram que o perfil dos centenários portugueses é maioritariamente feminino, viúvas, que nunca frequentaram a escola e vivem na comunidade. A maioria revela problemas de visão e audição resultantes dos problemas de saúde decorrentes da idade.
A mobilidade é também uma das dificuldades sentidas principalmente na locomoção e nas atividades básicas diárias tais como realização de higiene pessoal e a capacidade de se vestirem sozinhos. Relativamente à capacidade de memória, concentração, compreensão e fazer-se compreender, metade referiu não sentir dificuldade ou ter pouca dificuldade. Uma minoria pouco significativa (6%) demonstrou pouca dificuldade ou total ausência destes indicadores.
Dependência e institucionalização
A maioria da população centenária demonstra bastante fragilidade e vulnerabilidade, quer física, quer emocional. Na sua maioria são dependentes de terceiros e necessitam de cuidados médicos e de apoio social de longa duração. Estudos realizados demonstram que quase 50% da população centenária sofre de défice cognitivo, outros quase 50% estão institucionalizados e a maioria (60%) encontra-se acamada ou dependente de uma cadeira de rodas.
Apesar do cenário verificado, a maioria, de entre aqueles com capacidades cognitivas, apresenta uma apreciação positiva do estado de saúde e reconhecem ter uma vida satisfatória e com sentido.
Os “segredos” da longevidade: genética, hábitos e Blue Zones
O caminho para a longevidade ou uma velhice ativa e saudável tem sido objeto de interesse e de estudo da comunidade científica, tentando encontrar diretrizes e trajetórias com base em indicadores genéticos, sociais e de saúde.
Outros curiosos, tentam decifrar os “segredos” da longevidade tentando encontrar fatores comuns tais como a localização geográfica, a genética, comportamentos e hábitos que possam tornar-se nos “ingredientes” para uma vida longa. Verificou-se também a existência de regiões onde a concentração da população centenária é atipicamente elevada. São as denominadas por “Blue Zones”. Para alguns centenários, é apenas a “vontade de Deus” que prevalece, uma vida regrada e de trabalho e o facto de terem tido a sorte de não terem problemas de saúde graves.
Mas, se por um lado, a comunidade científica apenas se preocupa em encontrar os fatores responsáveis pela longevidade, por outro, levantam-se algumas questões de ordem política, social, religiosa e económica: “vale a pena viver até aos cem?” e “como se vive ao cem?”
Se por um lado os avanços da medicina e dos cuidados prestados à população ao longo da vida, associados à genética e a comportamentos individuais permitem-nos viver mais tempo, o conceito de “velhice bem-sucedida” estará adequado à realidade portuguesa?
A verdade é que há um grande desajuste entre a teoria e a prática. A longevidade bem-sucedida está aliada à independência, à autonomia, à vida em sociedade, à família e à felicidade apesar da inevitabilidade dos declínios funcionais e cognitivos característicos do envelhecimento. A maioria da população centenária portuguesa encontra-se longe dos níveis desejados que os impede de ter uma longevidade condigna: a perda de autonomia, os níveis de dependência, a diminuição das capacidades físicas e mentais impede-os de terem uma existência de uma vida plena e socialmente significativa.
Solidão e isolamento: o lado invisível da velhice
A solidão é um dos fatores preocupantes. Normalmente já perderam toda uma estrutura familiar: cônjuges, irmãos e até mesmo filhos! Mesmo os que restam não estão tão presentes quanto o desejado. Outras vezes, apesar de ainda estarem no seio familiar, são tidos como um incomodo, como inúteis, como se já não tivessem o direito de estarem vivos. A própria cultura leva a que a maioria, aí por volta dos 75, 80 anos sinta “que já não anda cá a fazer nada”.
Os desafios políticos, económicos e sociais da longevidade
Tendencialmente viveremos mais tempo, mas essa longevidade acarreta bastantes desafios para os quais é necessário juntar forças políticas, científicas e sociais para desenvolverem uma cultura positiva e alargada de cuidados às pessoas idosas, diferenciando a prestação desses mesmos cuidados em função das necessidades individuais.
A longevidade coloca vários dilemas à sociedade em termos como encara a vida humana na sua fase terminal. Estender os limites do envelhecimento de forma artificial é benéfico ou prejudicial para a dignidade humana? Perde-se a identidade e o controle sobre a vida e o futuro. Devemos ter o direito de escolher entre viver ou morrer com dignidade?
Poderemos prever os impactos da longevidade no futuro?
Com a esperança média de vida a aumentar haverá também impactos económicos no futuro. Até que ponto os sistemas sociais e das pensões vai ser sustentável? Não podemos prever o futuro, mas há várias coisas que vão ter de ser mudadas gradualmente.
O envelhecimento é uma fatalidade ou uma oportunidade? É essencial que os nossos políticos construam uma verdadeira economia de longevidade, com estratégias novas, com abordagens novas e uma categoria económica com todas as oportunidades que ela oferece. Haverá uma mudança nos hábitos de consumo e também mudanças no trabalho devido a uma maior produtividade.
O papel do apoio domiciliário e do terceiro setor
Por agora vão-nos valendo as iniciativas da sociedade civil e do terceiro sector, dedicado aos mais velhos, para promover o envelhecimento saudável. Quanto ao resto, veremos o que o futuro nos reserva.
Precisa de apoio domiciliário ou assistência ao lar para um familiar idoso? Saiba como podemos ajudar, contacte-nos hoje mesmo.
